A forma como ‘The Conjuring’ e ‘Midnight Mass’ usam a fé

ALERTA DE SPOILERS!

Desde que Drácula foi escrito por Bram Stoker, a iconografia cristã e o simbolismo encheram o cenário do horror. Os longas do gênero têm uma dependência forte da religião, como O Exorcista, esses filmes são do tipo que se podem compartilhar histórias bem convincentes de crença e . Ainda que, haja espaço para filmes como Halloween e Scream, são os casos religiosos que envolvem possessões e/ou assombrações demoníacas, muitas vezes baseadas em casos reais, que tomam conta da casa e com os efeitos certos, ficam até mais assustadores.

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Temos como exemplos The Conjuring Universe, lançado pela lenda de terror James Wan e a obra-prima da Netflix Midnight Mass, de Mike Flanagan. Ainda que, a Missa da Meia-Noite seja bem diferente em enredo e personagens, as obras compartilham alguns temas e imagens bem interessantes, mesmo que não sejam originais de nenhum dos filmes, mostram, de maneira muito boa, como a fé, principalmente a católica, pode ser utilizada para a luz e também para escuridão.

Fé: um escudo ou uma espada?

The Conjuring deixa claro desde o princípio que os padres católicos Ed Warren e Lorraine, sua esposa, assim como seus colegas da vida real, usam apenas seus conhecimentos para educar e proteger os outros. Eles acreditam que tem como dever jurado, como cristãos que são, não apenas provar o sobrenatural, mas defender os fracos e oprimidos pelo lado maligno de tudo. Mas, a integridade espiritual é o que realmente faz com que Ed e Lorraide se destaquem. Ao invés de utilizar a fé visando derrubar o próximo, os Warrens a utilizam como um guia para navegar em outras dinâmicas familiares bem complexas e misteriosas paranormais que se configuram como ainda mais complexos.
Como a igreja é histórica, Ed e Lorraine permanecem humildes perante o mal e muito fiéis um ao outro. Nenhum dos dois considera suas experiências como “fim de tudo, seja tudo” e, ao invés disso, apela ao Pai, ao Filho e também ao Espírito Santo para que façam a orientação e apoio constantes, sem margem para que existam dúvidas. E mesmo naqueles momentos nos quais a fé falha, os dois confiam naquele que uniu seu casamento e revela uma imagem de amor, paz e a segurança de Deus.

O primeiro filme de Conjuring é sobre uma família que é assombrada por uma bruxa satânica que espera conseguir matar as crianças possuindo a própria mãe na tentativa de “usar seu dom dado por Deus como a ofensa final contra ele” A família, em questão, não é religiosa e nem parece ter interesse em Deus, mas sim, no espírito cristão de “amar ao próximo”, o casal se arriscam para conseguir contribuir de alguma forma e acabam fazendo o exorcismo do demônio por meio da autoridade de Jesus Cristo. Os Warrens vivem se sacrificando pela vida do próximo, não guardam sua fé, eles a vivem com plenitude. Porém, não é bem assim na Missa da Meia-Noite.

Enquanto os protagonistas da Missa da Meia-Noite, Riley Flynn e Erin Greene são as estrelas do show, é o antigo e golpista padre Paul Hill (Hamish Linklater) e o fanático exibido Bev Keane (Samantha Sloyan) que acabam ganhando destaque ao lado da Igreja de São Patrício, ainda que não sejam verdadeiramente próximos do bom Deus. Padre Paul, que se apresenta como o velho e cansado Monsenhor Pruitt, que se tornou jovem novamente, acha verdadeiramente que está fazendo “o trabalho de Deus” com uma tentativa de salvar os fiéis infectando-os com sangue vampírico, o que o torna ainda mais perigoso.

Depois de viver alguns tempos em solo da Terra Santa, o padre volta à ilha com vigor juvenil e muito amor pelo destino espiritual da cidade.  A criatura oferece nova vida ao padre Paul por meio de sangue vampírico com uma diabólica reviravolta na antiga mensagem do evangelho (João 6:56). Bem diferente dos Warrens, o padre faz uma escolha, estipula algumas escrituras que justifiquem as suas ações e ignora as passagens que o condenam.

Esses “milagres” demonstram ser positivos no começo, excluindo o sangue vampírico. Os deficientes volta a caminhar, os idosos retornam à juventude e com saúde, também acabam se juntando à congregação local, porém, a medida em que a população volta a ser mais jovem, ocorrem consequências desastrosas como a interrupção da gravidez.

Lógico, é bem pior do que isso, a forma na qual o padre Paul mata e começa a gostar de sangue humano, todas as conversas com Riley sobre perdão, fé e salvação por meio de Cristo some devagar, só poderá ser substituída por mensagens que pareçam com seu culto predileto. Como um líder, ele utiliza de sua fé no “Anjo” e também a fé daqueles em sua volta como armar para entrar na cabeça das pessoas e transformá-las em animais irracionais.

Caindo da Graça

O doido que mora na Midnight Mass, Bev Keane, faz uma citação proposital em mais escrituras fora de contexto do que qualquer outro pregador de prosperidade ruim por aí, enquanto o padre Paul está simplesmente equivocado.
Tudo o que é importante para ele é o poder e isso é mostra o quanto sua fé e superficial e não faz nada de bom para o próximo, seu desdém pelos outros acaba resultando em comentários preconceituosos, cheios de poder e, até mesmo, na morte de um cachorro. Todo esse ódio tem apenas um direcionamento, que é um único muçulmano da cidade, o xerife Hassan, que age com maior semelhança a Deus do que a própria Bev jamais conseguiria.
Como o segundo no comando do Padre Paul, Bev joga todos seus crimes e erros para debaixo do tapete e se materializando como seu maior pecado, o desejo de ‘’brincar de Deus’’ com a vida das pessoas que estão ao seu redor.

Os destinos do padre Paul e Bev podem chegar ao fim da mesma forma, porém, com resultados distintos. O padre reconhece seus erros e se arrepende, oferecendo refúgio a fim de salvar quem espera escapar de seu destino iminente.
Ele faz de tudo para salvar sua filha, Sarah, que acaba morrendo tragicamente em seus braços. Apenas na morte, os membros da comunidade aproximam-se de Deus, sendo Bev a única exceção.
Vale a pena perceber a história do pai de Paul, um padre que quebrou seus botos de castidade, pois queria invocar um mais ainda mais destrutivo e que reflete de perto a história do padre Kastner de The Conjuring: The Devil Made Me Do It, o 3º filme da série.

Os dois sacerdotes têm morte horríveis como consequência de seus atos, porém, não antes de trazerem para à Terra criaturas demoníacas. A filha do padre Kastner, Isla, mantem uma obsessão com o oculto e cultiva o desejo de se tornar uma ocultista.

Livrai-nos do mal

Ainda que a bíblia tenha muito a dizer sobre não utilizar a fé para trazer as outras pessoas à escravidão (como Gálatas 5:1, que Bev ignorou ou, convenientemente, esqueceu). A bíblia também explana que as tentações e provações são inevitáveis. Assim como Jesus Cristo foi tentado por Satanás por quarenta dias no deserto, em The Conjuring e Midnight Mass os personagens também passam por provações. No desenvolvimento do filme Invocação do Mal 2, existe uma conexão de Lorraine com o demônio Nun Valak (Bonnie Aarons) e cada vez que ela utiliza seus dons sombrios, ela dá ao demônio um ponto de apoio de sua alma. Porém, quando as apostas tornam-se vida e morte, as pessoas acabam caindo em um verdadeiro perigo de morte, ela facilmente renúncia à criatura e a condena de volta para o inferno. É importante notar que o próprio demônio já foi derrotado pelo sangue de Cristo no filme spin-off The Nun, para ser derrotado outra vez, pela fé.

A tentação acaba se tornando um dos temas mais complexos na Missa da Meia -Noite, visto que aqueles personagens não são simplesmente tentado à escuridão por fortes demônios, ainda que haja isso, mas sim pelos os seus próprio desejos ‘’carnais’’.
Todo arco de Riley na ilha gira na orbita de seu alcoolismo e sobre a dor que ele infligiu sob a influência. Todas as noites, é ele que sofre com as assombrações da sua personalidade que quer beber, o que se caracteriza por um lembrete constante do que essa parte da sua personalidade pode fazer consigo

Enquanto o padre Paul contribui com Riley e Joe a lutar contra seus demônios internos, ele lentamente abraça os seus, físico e espiritualmente falando. O padre é integralmente dependente de seu mítico ‘’Anjo’’, porém, como os alcoólatras sob seus cuidados, ele entrega-se a uma festa de sangue que altera o seu curso terreno. A luta para sobreviver sem ele reflete a de Joe Collie, no momento em que ele mata Joe, fica claro que ele está assassinando a última parte boa de sim próprio.

Riley, seus pais e alguns outro da ilha são transformados pelo seus atos profanos, eles serão capazes de batalhar contra a própria sede de sangue, embora, diferente do padre Paul, eles não tenham sofrido enganações ao pensa que é “a vontade de Deus”.

As boas notícias

Ainda que Midnight Mass seja uma história trágica que tem como resultado, praticamente, uma ilha inteira de pessoas se queimando vivas, ainda é possível tirar conclusões positivas. Embora se mostre claro que o criador da série, Mike Flanagan, trabalha na sua própria história de religião, o padre, o principal instigador de toda essa dor, às vezes, volta a si. É lógico que se torna tarde demais, porém, como um ladrão na cruz ao lado de Cristo, o padre se arrepende em seus últimos momentos, com esperança de encontrar alguma absolvição pelos seus atos. Em última análise, a luz vence a escuridão ao final e enquanto o anjo vampírico pode tentar escapar, é bem provável que a luz o superará.

De forma oposta, a série The Conjuring vê os Warrens lutarem com força e venceram contra a escuridão. Chad Hayes e Carey Hayes, os escritores originais, tecem o próprio cristianismo no filme, o que permite que sua fé clara e devota em Cristo para honra de vencer cada adversário demoníaco.

O que faz The Conjuring se destacar é aquele compromisso genuíno de seu personagem com Deus e com os que estão em sua volta, não um ou outro. É provável que a lente da fé poderá ser um desligamento para alguns, mas o filme faz tudo o que pode para fazer uma caracterização honesta.

Em um mundo onde prefere-se criar criaturas que representem as religiões do mundo, Midnight Mass e The Conjuring são alguns exemplos da forma sobre como histórias de religião complexas devem ser contadas para o público e as que vem das experiências de fé autêntica próprias são as melhores. Essas histórias são as que precisam ser contadas, aqueles que colocam a vida, o aprendizado, amor e espiritualidade em perspectiva.

 

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